‘’Surgiu uma união bonita entre as mulheres’’, Taís Araújo

A ESTILO escolhe debater a causa.

Quando Taís Araújo soube que estava grávida de uma menina, a Maria Antônia, hoje com 2 anos, bateu um medo. “Me perguntei a gravidez inteira como seria a vida dela, uma menina que teria de encarar todas as dificuldades pelas quais uma mulher negra passa no Brasil”, diz.

Taís se tornou uma voz ainda mais ativa nesse sentido em suas declarações e seus trabalhos – protagoniza atualmente a peça O Topo da Montanha, está se preparando para mais uma temporada do seriado global Mister Brau, obras que falam sobre temas como racismo e feminismo, e neste mês estreia como uma das apresentadoras do programa de TV Saia Justa, exibido pelo GNT, que propõe discussões sobre a mulher.

Aqui, Tais fala sobre usar a fama para conscientizar e, claro, sobre como a moda se insere e pode ajudar nesse processo.

A importância de haver celebridades engajadas?
Os artistas europeus e norte-americanos sempre se posicionaram em relação a temas sociais, enquanto no Brasil, até bem pouco tempo atrás, o comum era o contrário. Havia um pudor nesse sentido e a postura geral era de neutralidade. Eu realmente não acho que as pessoas são obrigadas a se posicionar. Há assuntos sobre os quais não temos opinião e tudo certo. Mas sinto que isso vem mudando no país e, como as questões da mulher nos dizem respeito diretamente, afinal, são os nossos direitos, não há como ficar indiferente, especialmente porque temos assistido a uma grande onda de retrocesso nesse tema. Nos últimos 14 anos, vimos avanços nos direitos das mulheres no país.

Quando começamos a notar que estava surgindo um movimento contrário a isso, que essas conquistas poderiam se perder, surgiu uma união bonita entre as mulheres. Começou a se falar em sororidade. Acho muito bacana ver o brasileiro com coragem para se posicionar, de falar independentemente de suas escolhas políticas. E para se posicionar é fundamental ter autoestima.

Quando caiu a ficha do precisa falar?
TAÍS – Eu não tenho dúvida de que a consciência sobre a necessidade de lutar por melhores condições para as mulheres veio quando engravidei da minha filha. Eu já era mãe, mas do João Vicente. Lembro que, quando soube, na primeira gravidez, que era um menino que estava por vir, senti um alívio, que não consegui identificar muito de onde vinha. Só saquei o que era quando engravidei da minha filha. Com ela, veio um desespero: “Estou grávida de uma mulher negra. Como será a vida dela?” Passei a gravidez inteira aos prantos pensando muito nisso, na minha própria história, nas minhas feridas. Porque a mulher negra é a última na fila da sociedade. Primeiro vem o homem branco, depois a mulher branca, o homem negro e só então a mulher negra. Há um abismo de diferença entre a mulher branca e a negra e isso tem a ver com a construção do Brasil. Foi com base nisso que me vieram as seguintes perguntas: “Quem sou eu e o que represento?”, “O que posso fazer?”, “O que eu quero que a vida dessa menina seja?”. Concluí que tinha de trabalhar por ela. Aí fui estudar o feminismo e o feminismo negro, porque eles são diferentes. A dor da mulher negra é mais embaixo.

Qual a sua causa pessoal?
“Eu tenho essa identificação com a causa da mulher negra e da mulher em geral, mas gosto muito de falar sobre empatia, sabe? Sobre o quão fundamental é você se colocar no lugar do outro, o quão importante é entender que o outro é essencial para a sua existência, que ele é uma potência e não uma ameaça. Temos no Brasil uma cultura esquisita de pensar que “o que é meu está garantido”. Eu não quero isso para a minha vida. Acredito que, se eu fortalecer o outro, vou sair igualmente fortalecida. Apesar de não ser analfabeta, o analfabetismo é um problema meu. As questões LGBT, idem. São questões minhas porque eu vivo na mesma sociedade dessas pessoas. Estou criando duas crianças que estão crescendo na Zona Sul do Rio de Janeiro e elas não podem achar que o Rio acaba no Jardim Botânico. Então, penso muito na importância da empatia, de querer que a vida de todo mundo melhore, de acreditar no outro e na educação.

Como a moda entra na discussão?
Quando um estilista como o Riccardo Tisci escolhe uma modelo como a Lea T., que é transexual, para desfilar para sua marca e estrelar suas campanhas, ele está dando um recado. Não há como a moda não passar pelo comércio, claro. Mas ela também tem um poder de influência no comportamento. Acho, por exemplo, que a moda tem de repensar o termo plus size, que geralmente é usado para meninas de manequim 46. Isso é uma loucura. Quem usa 46 não é obesa. Tenho muitas amigas gordinhas que me dizem que não conseguem encontrar roupas em algumas lojas, pois só há até o tamanho 44.

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