LAB encerra SPFW N43: “Impossível enxergar só um lado do Brasil”

Em sua segunda coleção, a LAB tem o samba como ponto de partida

Escrevo esse texto ao som de Cartola, horas após o desfile da LAB encerrar o #SPFW N43. “Ouça-me bem amor, preste atenção o mundo é um moinho”. E nesse mundão, Leandro e Evandro, os filhos da Dona Jacira, artesã e responsável pelos primorosos bordados apresentados na segunda coleção da Lab, conquistam espaços. “Temos a missão de mostrar pro mundo que pode ser de outra maneira”, disse Fióti, em uma conversa com a ESTILO, minutos antes do desfile da coleção batizada como Herança.

Dona Jacira admira seu trabalho na jaqueta da modelo Bárbara Valente nos bastidores do SPFW N43

Dona Jacira admira seu trabalho na jaqueta da modelo Bárbara Valente nos bastidores do SPFW N43 (Sergio Caddah/Agência Fotosite)

Com direção criativa de João Pimenta, a coleção traz o malandro revisitado. No lugar do chapéu de palha, temos o bucket, o chapéu de aba mole, moda entre os skatistas. Ternos de risca de giz com modelagem jogging, casacos esportivos e elegantes pijaminhas numa cartela de cores onde o preto, o branco e mescla são predominantes. Moletom, malhas e peças em tecidos esportivos aparecem como os principais materiais. Tules, transparências e paetês também estão presentes.

Lab (Zé Takahashi/Agência Fotosite)

Que herança vocês vão deixar hoje no SPFW?
Acho que a gente vai escrever mais uma página bonita dentro da história do evento e dentro da nossa própria trajetória. Acredito que pessoas Brasil afora vão se conectar com o nosso propósito. Vamos deixar um legado para a nossa geração e para as futuras gerações. E, principalmente, aproximar o nosso ambiente musical, as coisas que nos influenciaram e que moldaram nosso jeito de ser, nosso jeito de agir para um público novo, que hoje nos escuta e nos dá voz.

Como o samba entrou na coleção?
Quando a gente terminou o último desfile, a gente ficou pensando como seria o próximo e aonde buscaríamos referências para construir a história que acreditamos que deve ser contada na passarela. O samba entrou por causa do seu centenário e por ser um gênero que a minha mãe ouvia em casa. Dos nossos primeiros discos, das coisas que a gente ouvia porque meu pai era DJ. Falar de samba é falar da nossa trajetória e também é aproveitar a visibilidade e o espaço que gente tem para agradecer pessoas que nos ajudaram a ser quem somos hoje. Pessoas que ajudaram na nossa formação cultural, musical, política. É como se o rap tivesse levando o samba pra rua novamente.

A Djamila Ribeiro disse que a moda ainda tenta deixar o negro invisível.
Sim.

Na minha percepção, o SPFW está mais preto, principalmente pela chegada de vocês na última edição. Sinto que o público negro também se sente mais bem-vindo.
Pertencente deste ambiente.

Como você vê a relação da moda com o negro?
Eu acho que o mercado da moda é o reflexo da estrutura do Brasil. Um dos motivos pelo quais a gente mais briga pela permanência do Laboratório Fantasma é porque quando você começa a discutir negócios, quando você começa a entrar nos espaços de poder, você vê que esses espaços vão ficando cada vez mais heterossexuais e brancos.

São coisas que são sutis no Brasil. Muitas pessoas acham que o Brasil não é um pais racista. Mas o Brasil é um pais extremamente racista. Só que o racismo no Brasil é velado, escondido pela sua estrutura. Então, temos o conhecido racismo estrutural, aquele que não te escancara na cara que ele é racista, mas não te dá oportunidade de crescimento.

Por isso, quando você vê uma trajetória como a nossa, que é uma continuação do que outras pessoas já fizeram, as pessoas se identificam e se sentem parte. Não tivemos referências brasileiras que conseguiram chegar nesse universo vindo da onde a gente veio, fazendo o que a gente faz. Acho que somos a primeira geração que consegue fazer isso dentro de um evento como o SPFW. Existiram outras marcas de streetwear conduzidas por negros, mas infelizmente não conseguiram ter espaço porque o tempo era outro.

Acho que chegou o momento, em que foi impossível para o evento continuar com aquela narrativa de enxergar só um lado do Brasil. Eu nem culpo o evento em si, eu acho que é reflexo das pessoas que estão por trás das marcas, que normalmente são pessoas que têm um capital financeiro e vão fazer aquilo que vai vender mais, entendeu? E vão enxergar só esse tipo de público e vão deixar excluída uma boa parte da população. Que na verdade, é quem consome.

Acho que a nossa chegada aflora algumas questões e deixa claro que este não é um espaço democrático, ainda. Então, aquela comoção que rolou no desfile passado, e era uma coisa que a gente nem esperava que fosse tão forte, é porque as pessoas se sentiram impactadas com aquilo. Acho que mexe estruturalmente com a presença das pessoas que comparecem aos desfiles. Você vê que algumas pessoas que não freqüentavam esse universo, agora freqüentam. E isso faz rolar uma disparidade de pensamentos, de crenças, de políticas. Todas as pessoas devem ter voz, todos os corpos devem ter voz.

Cada vez mais, temos que lutar para acabar com todo tipo de discriminação e preconceito em qualquer ambiente, mas principalmente para que as pessoas brancas consigam reconhecer seus privilégios, que existem. Isso não quer dizer que vamos ser inimigos. Só quer dizer que esse país foi feito dessa maneira. Temos a missão de mostrar por mundo que pode ser de outra maneira.

Emicida e Fióti, é o rap trazendo o samba

Emicida e Fióti, é o rap trazendo o samba (Sergio Caddah/Agência Fotosite)

Ao mesmo tempo, a moda sempre bebeu na fonte da rua, dos negros, do street style… mas sem negros. Agora, vocês conseguem unir isso genuinamente.
Exatamete. O que aconteceu nos últimos anos no Brasil impulsionou para a criatividade e surgimento de possibilidade de pessoas como nós estarmos a frente de negócios, podendo explorar essas atividades da maneira que a gente acredita que elas devem ser exploradas. O mercado tá aí, as pessoas querem consumir…se não for nós, que temos propriedade pra fazer isso, alguém vai fazer e vai vender, entendeu?

E vocês tentam fazer preços e tamanhos acessíveis, certo?
A gente busca fazer isso, da melhor maneira possível, em tudo o que a gente faz. A gente é muito coerente com a nossa trajetória. Eu sei até que horas fiquei acordado brigando com fornecedor pra chegar num preço para que as pessoas consigam pertencer a este universo. Em todas as peças é possível? Não é possível, porque temos um alto investimento. Todo mundo sabe o quanto o trabalho do João Pimenta (diretor criativo da LAB) é extremamente valorizado no Brasil inteiro. Acho que é a primeira vez que uma pessoa da periferia como eu tem a possibilidade de vestir, ter uma peça que foi feita dentro de um ambiente de moda, que antigamente a gente não poderia nem pertencer. O máximo que você podia fazer era ver através da internet ou da TV. E o pensamento que tínhamos era “isso não é pra nós”, entendeu?

Mas agora é, né?
Agora é!

Lab (Zé Takahashi/Agência Fotosite)

Emicida, o sambista Wilson das Neves, a cantora FAbiana Cozza, Fióti e Dona Jacira no encerramento do desfile da LAB

Emicida, o sambista Wilson das Neves, a cantora FAbiana Cozza, Fióti e Dona Jacira no encerramento do desfile da LAB (Zé Takahashi/Agência Fotosite)

Lab
Março / 2017
foto: Zé Takahashi / FOTOSITE (Zé Takahashi/Agência Fotosite)

Lab (Zé Takahashi/Agência Fotosite)

Lab (Zé Takahashi/Agência Fotosite)

Lab (Zé Takahashi/Agência Fotosite)

Lab /Zé Takahashi / FOTOSITE

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