Sasha sobre viver em Nova York: “A melhor coisa que me aconteceu”

Ela criou asas, foi estudar nos Estados Unidos, já se comporta como uma influencer e se prepara para escrever seu nome na calçada da moda.

A vida de Sasha tinha tudo para ser uma espécie de Show de Truman, o filme, a começar pela data de nascimento e lançamento de ambos: 1998. O roteiro também é parecido. Assim como Truman, interpretado por Jim Carrey, Sasha teve parte da vida televisionada. Seu parto foi transmitido pelo Jornal Nacional, com audiência nas alturas, e do convite do seu primeiro aniversário às participações em CDs e filmes da mãe, a Xuxa, tudo o que fazia gerava curiosidade, carinho e humano, demasiadamente humano, animosidade e críticas também. Sasha errou no português? Virava manchete.

Felizmente, a realidade às vezes é mais generosa do que a ficção, e ela conseguiu sair da bolha bem antes dos 30 anos, idade em que Truman percebe que há algo errado em sua vida e tenta fugir de sua cidade-prisão. Desde bem cedo, aliás, Sasha criou certo senso de autopreservação que fez com que passasse quase despercebida por um bom tempo. “A Sasha sempre foi tímida. Ao contrário de mim, que na infância queria sair na foto na frente da noiva, ela detestava ser clicada e mostrava o dedo para os fotógrafos quando pequena. Por sorte, era o errado. Mas eu sabia o que significava”, diz Xuxa, que acompanhou de perto esta sessão de fotos. O que aconteceu entre a menina tímida e arisca, que não queria viver à sombra da mãe, e o mulherão que olha com a desenvoltura de Gisele Bündchen para as câmeras? A moda. Sim, foi por meio dela que Sasha se redescobriu e passou a ficar mais à vontade em seus próprios sapatos, para usar uma expressão norte-americana, já que é na Terra do Tio Sam onde ela mora. “Desde os 16 anos, eu pensava em estudar na Parsons (tradicional escola de moda em Nova York). Era um sonho. Meu plano, porém, nunca foi ir para a cidade. Sempre fui ligada à natureza e pensava ‘lá só tem prédio’”, conta. “Mas foi a melhor coisa que me aconteceu.” A mudança coincidiu com sua maioridade e foi uma espécie de turning point. Carioca da gema, ex-atleta do time de vôlei do Flamengo, Sasha é mais Sasha em Manhattan. “Me sinto mais eu mesma. Nem sei explicar. Acho que é a energia da cidade. Lá, todo mundo pode ser livre. Não tem julgamento. Tem respeito. Isso é maravilhoso. Você anda pelas ruas e cada um está na sua, passando sua mensagem. Ninguém está preocupado se a blusa do outro é transparente, se o cabelo é azul.” Impossível negar, NY tem moda por todos os lados e vibra independência desde a Estátua da Liberdade até o Harlem. “Fui à exposição da Comme des Garçons no The Metropolitan Museum of Art e fiquei encantada. Aquilo é arte.”

(Jacques Dequeker//Sasha sobre viver em Nova York: "A melhor coisa que me aconteceu"/Estilo)

Sasha começou a engatinhar rápido na moda. Em 2016, ano em que entrou na Parsons, a Coca-Cola Clothing, que faz parte do grupo AMC Têxtil, dono da Colcci de Gisele, a convidou para criar uma coleção cápsula. “A ideia era fazer peças que tivessem a ver com o meu estilo, que caíssem bem e fossem básicas. Afinal, sou uma estudante de 19 anos.” Faz sentido. O que a marca queria era ter Sasha como garota-propaganda para vestir aquilo que outras garotas da sua idade gostariam, e a jogada de marketing funcionou como o empurrão derradeiro para que ela finalmente fizesse as pazes com as câmeras. Fotografada em Tóquio, a campanha obrigou Sasha a tornar público seu perfil no Instagram. Menos de um ano e 2,8 milhões de seguidores depois, o mosaico de fotos está lá para quem quiser ver Sasha viajando, se divertindo com as amigas (Bruna Marquezine entre elas), explorando a sensualidade em cliques poéticos/eróticos. Meio Show de Truman parte 2. Com a diferença de que agora Sasha parece estar na direção desse reality show. “O Brasil inteiro já viu meu peito”, disse, meio moleca, meio irônica, enquanto debatia com a mãe se deveria ou não usar um protetor por baixo de um vestido transparente de uma das fotos desta reportagem. “Quando criança, eu não sabia lidar com a exposição e lutava contra. As pessoas acham que você sempre deve satisfação. Em Nova York, estou longe de tudo isso e acabei encontrando um jeito de lidar com as expectativas.”

É que Sasha cresceu. Virou um mulherão, que rouba a cena em bailes beneficentes e eventos de moda – não por menos, o mundo fashion anda caído de amores por ela. Mas tem consciência de que ainda está no começo de um longo caminho. “Vou ser bem sincera: adorei criar, mas tive muita ajuda na Coca-Cola. Estou no segundo ano da faculdade e ainda nem tenho certeza se quero ser estilista. Gosto muito de direção de arte, de estudar tendências e movimentos sociais. Há tantas profissões na moda que me fascinam.” Stylist, por exemplo, é um dom que desabrochou cedo. Voluntariosa, nunca deixou a mãe brincar com ela de bonequinha. “Com 3, 4 anos, ela já falava ‘essa não’ quando tentava colocar uma roupinha. Eu ficava p… da vida. Pensava: ‘Pô, todas as mães colocam as roupas que querem na filha’”, revela Xuxa. Não satisfeita em escolher seu look do dia, palpitava na roupa da mãe – e seus conselhos mirins faziam sentido. “Ela tem um olhar para a moda que ultrapassa a roupa. Em um dos shows do Criança Esperança, disse que a Xuxa não deveria usar preto. Era bem pequena, devia ter uns 5 anos, mas de alguma maneira sentiu que a mãe passaria a imagem errada usando uma cor escura num evento assim. E nunca uma roupa da Xuxa foi tão criticada”, conta Mônica Muniz, empresária de Xuxa e praticamente parte da família – é com a filha de Mônica, a fotógrafa Bruna Moreira, que Sasha divide um apartamento em NY. “Via minha mãe se vestindo para shows e festas e ela sempre me pedia opinião. Acho que foi uma das maneiras que ela encontrou de me fazer me sentir importante”, diz.

(Jacques Dequeker//Sasha sobre viver em Nova York: "A melhor coisa que me aconteceu"/Getty Images)

Embora Sasha esteja comemorando a independência e, de certa maneira, o anonimato, a conexão entre mãe e filha é inegável. Uma fala, outra complementa. Uma aprende com a outra. “Filha, olha para a câmera pensando naquilo”, brincou Xuxa em uma das inúmeras dicas que deu durante o shooting. Sasha não só seguiu os conselhos, como olhou praticamente o tempo todo para a mãe em busca de apoio. Mas também teve voz de comando e mostrou uma maturidade que surpreende para a idade. A todo momento, conferia o resultado das fotos, prestando atenção e tentando aprender o máximo.

A autonomia entre elas fica mais clara nos detalhes. Xuxa tem um apartamento em Nova York em Midtown desde sua época de modelo. Mas Sasha sempre gostou de Downtown – e foi lá que decidiu morar. Xuxa é a personificação da Gata de Botas e da estética sexy dos anos 1980. Sasha é millennium, fã de básicos com acessórios de destaque. “Meu guarda- roupa é jeans rasgado, camiseta, jaqueta oversized. Os momentos high-fashion deixo para alguns acessórios, como uma bolsa que vai gritar, o tênis de estrela da Stella McCartney… Você põe com um short jeans e uma camiseta branca e fica lindo”, afirma ela, que diz acreditar que a moda reflete o estilo de vida de cada um. “Meu dia a dia é ir para a faculdade e sair com as minhas amigas. Gosto do conforto e de me sentir bem.”

(Jacques Dequeker//Sasha sobre viver em Nova York: "A melhor coisa que me aconteceu"/Estilo)

Sentir-se bem é coisa em que ela tem trabalhado sério nesse período fora. “Acredito muito em energia e espiritualidade. Sou a louca das pedras. Tenho um altar com cristais de quartzo e sempre ando com um deles, além do meu anel de olho grego (que estava no dedo de Xuxa no dia das fotos). Depois que mudei de país, percebi como tudo se reflete na gente: o ambiente, as pessoas. Tenho me cercado de pessoas mais leves e com isso me sentido mais zen. Sempre fui mais bravinha e agora estou focada na escola, no trabalho, na vida”, analisa. “Nos vemos uma vez por mês”, diz Xuxa. “Estou aprendendo a estar presente só quando ela precisa. Depositei muito peso na Sasha. Ela é a filha que eu sempre quis e o que quis mais que tudo. Sonhava com ela exatamente como é: as mesmas cores e até o signo! Quando eu tinha 28 anos, o Caetano Veloso foi ao meu programa e pedi a ele para cantar Leãozinho, porque minha filha ia ser leonina. Ele perguntou se eu estava grávida e eu disse que não, mas que ela ia ser de leão mesmo assim. Imagina o peso disso na cabeça de uma criança? Graças a Deus, a Sasha me mostrou que eu a estava sufocando e passei a me segurar antes de deixar tantas marcas.”

Leonina, decidida, com sede de ser feliz e sem receio de falar o que quer seja para quem for. Esses são alguns dos predicados que Sasha começa a mostrar para o mundo, bem além de seu 1,74 m de altura, do corpo sarado, dos cabelos ondulados, da pele irretocável e do sorriso impecável. “Ela é toda perfeitinha, né? Foi feita com muito amor”, diz a mãe coruja, esfregando a barriga e mostrando que nem sempre consegue se conter. Sasha também é só amores por Xuxa, ainda que esteja pronta para voar. “Meu maior medo é decepcionar minha mãe. Nunca a vi como a Xuxa ou a Rainha dos Baixinhos. Ela é a minha amiga e minha conselheira. Brigamos, discutimos, mas sei que sempre estará a meu lado mesmo em momentos de erro. Para mim, ela é um anjo de verdade.”

(Jacques Dequeker//Sasha sobre viver em Nova York: "A melhor coisa que me aconteceu"/Estilo)

(Jacques Dequeker/Estilo)

(Jacques Dequeker/Estilo)

(Jacques Dequeker/Estilo)

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